Estava aqui estudando a evolução do metal extremo e no processo, achei que valia montar uma playlist que ilustre essa história.

Primeiramente um ponto importante: isso absolutamente não se trata de uma genealogia completa do metal extremo. Isso demandaria uma playlist muito mais vasta, toneladas de bandas essenciais, cenas e desenvolvimentos paralelos que estão necessariamente ausentes aqui. A ideia é muito mais modesta e deliberadamente didática: montar uma sequência mais ou menos cronológica na qual se possa ouvir claramente as “mutações” na linguagem do metal extremo.

É uma viagem cronológica pela formação do metal extremo, de Black Sabbath ao blackened death metal de Behemoth. A seleção não busca listar clássicos: cada faixa representa uma transformação importante na linguagem do metal — peso, velocidade, agressividade, timbre, riffing, vocais extremos, blast beats e atmosfera. Ela foi feita para ser ouvida na ordem: cada música preserva algo da anterior e acrescenta uma mutação que ajudará a produzir death metal, black metal e, finalmente, sua convergência no blackened death.

A sequência foi:

1. Black Sabbath — “Black Sabbath” (1970)
Black Sabbath
É quase o Big Bang: andamento lento, guitarra extremamente pesada para 1970, trítono, atmosfera de horror. Ainda há blues no DNA, mas já existe a ideia fundamental de que peso e ameaça podem ser o próprio assunto.

2. Black Sabbath — “Children of the Grave” (1971)
Master of Reality
Aqui tem outra coisa necessária para o extremo: propulsão. O riff é repetitivo, físico e muito mais agressivo. A combinação das duas primeiras faixas estabelece duas propriedades que depois serão radicalizadas separadamente: peso + velocidade/agressividade.

3. Motörhead — “Overkill” (1979)
Overkill
Agora entra o punk, velocidade e sujeira. Eles nao se consideravam metal, mas historicamente isso pouco importa. Essa agressividade influencia enormemente thrash, black e death. Aquela sensação de ataque contínuo da bateria será importantíssima.

4. Venom — “Black Metal” (1982)
Black Metal
Aqui cruzamos uma fronteira. Venom ainda não é black metal como Darkthrone será. Musicalmente há Motörhead, heavy metal e punk por toda parte. Mas agora entram deliberadamente produção suja, satanismo, vocal áspero, velocidade e uma estética de extremidade. É uma das pontes fundamentais entre metal tradicional e extremo.

5. Slayer — “Black Magic” (1983)
Show No Mercy
Essa escolha é proposital porque ainda conseguimos ouvir claramente o heavy metal ancestral. Mas Slayer começa a transformar o riff. Ele fica mais cromático, maligno e agressivo.

6. Slayer — “Angel of Death” (1986)
Reign in Blood
Agora compare com “Black Magic”. Em três anos aconteceu uma barbaridade. Riffs frenéticos, tremolo picking, bateria brutal, solos deliberadamente caóticos. O metal está deixando de ser simplesmente pesado para tornar-se extremo. Essa é provavelmente uma das peças mais importantes dessa ponte para o death metal.

7. Possessed — “Death Metal” (1985)
Seven Churches
Sim: a faixa literalmente se chama “Death Metal”. E aqui chegamos àquela região maravilhosa em que ninguém consegue colocar uma fronteira exata entre thrash e death. Depois de Slayer, parece familiar… mas mais primitivo, cavernoso e monstruoso. Possessed é um dos candidatos históricos ao título de primeiro death metal (controvérsia, tô ligado…).

8. Death — “Zombie Ritual” (1987)
Scream Bloody Gore
É um momento-chave da playlist. Com Death, especialmente Chuck Schuldiner, aquilo começa a se tornar inequivocamente uma linguagem própria. O vocal desce. A guitarra ganha massa. Os riffs tornam-se mais mórbidos, cromáticos e menos derivados do heavy tradicional.

9. Morbid Angel — “Immortal Rites” (1989)
Altars of Madness
Aqui o gênero amadureceu assustadoramente rápido. Morbid Angel adiciona virtuosismo, riffs labirínticos, blast beats e uma atmosfera ocultista muito mais sofisticada. É especialmente importante porque esse DNA chegará ao Behemoth.

10. Deicide — “Sacrificial Suicide” (1990)
Deicide
Outra cristalização do death americano. Aqui a coisa ficou tipo “beleza. Agora death metal é definitivamente um gênero.” Vocais growl, blast beats, double bass, guitarras graves, satanismo frontal, violência sonora.

Aqui a playlist dá um cavalo de pau pra visitar o outro ramo da genealogia. Até aqui seguimos principalmente: Sabbath > Motörhead > Venom/Slayer > Possessed > Death > Morbid Angel/Deicide. Mas Behemoth não pode ser explicado apenas por essa linhagem. Temos que dar uma voltada ao Venom e seguir a outra bifurcação.

11. Bathory — “Enter the Eternal Fire” (1987)
Under the Sign of the Black Mark
Este é um dos discos mais importantes de toda a genealogia. Bathory pega aquela coisa ainda thrashy/punk do Venom e começa a produzir algo diferente. A guitarra passa a criar atmosfera e se tornar transcendente, ritualística. Aqui está boa parte do DNA do black metal posterior.

12. Mayhem — “Freezing Moon” (1994)
De Mysteriis Dom Sathanas
Aqui estamos plenamente na segunda onda norueguesa. Comparado com Death/Morbid Angel, ambos são extremos, mas buscam coisas diferentes. Death metal: massa, impacto, brutalidade. Black: tremolo, repetição, dissonância, espaço, frio, atmosfera.

13. Darkthrone — “Transilvanian Hunger” (1994)
Transilvanian Hunger
Isso aqui é uma definição de laboratório do black metal de segunda onda. Tremolo incessante, blast beat, vocal shriek, produção meio lo-fi, repetição hipnótica. E um detalhe massa: comparada a Morbid Angel, a guitarra parece fina. Enquanto o Death Metal quer massa (volume no sentido de ocupação do espaço sonoro), Darkthrone quer atmosfera.

14. Emperor — “I Am the Black Wizards” (1994)
In the Nightside Eclipse
Agora o black descobre que pode ser monumental. Emperor acrescenta teclados, estruturas grandiosas, harmonia e uma escala quase sinfônica. Isso é importantíssimo para compreender Behemoth: a estética do black metal não precisa significar apenas minimalismo e gravação precária (talvez eu tome pedrada aqui… hahhahaa). Ela também pode significar grandiosidade ritualística.

E agora os ramos voltam a se encontrar. De um lado Death > Morbid Angel > brutalidade/complexidade e e do outro Bathory > Mayhem/Darkthrone > Emperor > atmosfera/monumentalidade. Hora de ouvir o que acontece na Polônia.

15. Behemoth — “From the Pagan Vastlands” (1994)
Sventevith (Storming Near the Baltic)
Esta escolha é didática. Essa faixa não soa como o behemoth que a maioria identifica como behemoth. É fundamentalmente black metal. Ouvindo Darkthrone/Emperor depois isto a ancestralidade fica evidente.

16. Behemoth — “Decade of Therion” (1999)
Satanica
Aqui rola uma mutação. 5 anos e a guitarra engordou horrores. O riffing tornou-se muito mais death. O vocal ganhou corpo. A produção mudou. Aqui dá pra ouvir o Behemoth atravessando a árvore genealógica.

17. Behemoth — “Conquer All” (2004)
Demigod
Agora a fusão está consolidada. A base instrumental é esmagadoramente death metal: riffs, precisão, peso, double bass, brutalidade. Mas aquela concepção ritualística, ocultista e grandiosa proveniente do black permanece. É o blackened death metal plenamente desenvolvido.

18. Behemoth — “Ov Fire and the Void” (2009)
Evangelion
Agora eles dominam completamente a linguagem. Compara com “Immortal Rites”. Dá para encontrar bastante DNA do death. Depois compara com Emperor e dá pra ver “a outra parte” da personalidade.

19. Behemoth — “Blow Your Trumpets Gabriel” (2014)
The Satanist
Aqui Behemoth não parece mais uma colagem de death + black. As duas linguagens foram metabolizadas com peso death, atmosfera black, monumentalidade, dinâmica, ritual, produção moderna. A hibridização virou uma linguagem própria.

E aí fecha essa playlist com uma pequena história do metal extremo como eu entendo ela. Está cheio de simplificações, algumas “polêmicas” e algumas escolhas que nem todo mundo pode concordar. Mas eu quis fazer isso mais como uma metáfora didática para mim mesmo do que um tratado de genealogia do metal. A história tá cheia de caminhos não lineares, profusões de influências cruzadas e recíprocas….

Mas me parece que esses são marcos importantes para ouvir e entender a evolução de uma parte do metal extremo que culmina no blackened death. É um caminho possível.

Como eu uso o Tidal, montei a playlist lá: https://tidal.com/playlist/4fbab42d-8cc4-43cb-a2b2-8d6f80dcf126